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TEXTOS EM PROSA

Textos pessoais em prosa, citações de livros, letras de músicas, vídeos especialmente de "dance- music", comentários a certo tipo de imprensa etc.

TEXTOS EM PROSA

Textos pessoais em prosa, citações de livros, letras de músicas, vídeos especialmente de "dance- music", comentários a certo tipo de imprensa etc.

Vergílio Ferreira - conta corrente

 
                                                           * 
     E de súbito, mesmo sem cabeça apropriada, tacteei o romance, a ver. Mas foram só umas linhas. É extraordinário como o romance me resiste ou eu o faço resistente, como nada me resiste. Ás vezes lembro-me: atirar-me de cabeça. Mas partia-a com certeza. O livre vagabundear é para escritos de vagabundagem. Cartas, diário, mesmo um pouco o ensaísmo . Romance é de palavra a palavra. Roda livre e é logo de suspeitar.
     Não assim o meu amigo Ramos Rosa. Telefonei-lhe ontem. Como ia, como não ia. Já há tempos que não comunicávamos . Ele foi dizendo. Mal naturalmente. O físico, o psíquico, o mental. E de versos? É o meu ponto de referência para avaliar da lamúria. Pois de versos, uma beleza. Fornadas deles todos os dias. O ano passado publicara dois livros. Este ano outros dois. Era assim. Lá adianto o conselho de que não devia ser tão incontinente. Ele encolhe os ombros no que me responde. Que havia de fazer? Gostava de fazer versos. Gostava de publicar. E contra isso só o túmulo. Fiquei a invejá-lo. Não bem. Eu disse-lhe: a melhor música ouvida dezenas de vezes acaba por chatear. Ele deve ter encolhido os ombros outra vez perante a irremediável fatalidade. Gostava de fazer versos. Gostava de publicar. Disse-lhe que para epígrafe deste meu novo romance ia utilizar uma expressão de um verso dele. Chama-se o romance agora Até ao Fim. Disse o verso.  Ele agradeceu. Lembrava-se mais ou menos do verso. Obrigado, obrigado. E desligámos. Suponho que ia aproveitar o resto do dia para fazer mais versos. Versos bons, com certeza. Mas não tão bons pela abundância em torrente. Mas que fazer? Era assim. Gostava de fazer versos. Gostava de publicar. E quem não quiser que não leia.  O seu fado era esse, as musas enfrascavam-no de poética. E ele tinha que a esvaziar para não morrer de hidropisia.