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TEXTOS EM PROSA

Textos pessoais em prosa, citações de livros, letras de músicas, vídeos especialmente de "dance- music", comentários a certo tipo de imprensa etc.

TEXTOS EM PROSA

Textos pessoais em prosa, citações de livros, letras de músicas, vídeos especialmente de "dance- music", comentários a certo tipo de imprensa etc.

Joseph Heller - Pânico II

     Os filmes indecentes tornaram-se melhores, ao que me dizem. Obscenidades e armamento sãos duas áreas em que nos aperfeiçoámos. Tudo o resto piorou. O mundo vai perdendo a força. Já não se consegue comer bom pão nem se quer em bons restaurantes (trazem-nos pãezinhos comerciais), e há menos restaurantes bons.(...) A planície frutícula está coberta de insecticidas e adubos químicos. Até a bosta de cavalo pura é difícil de encontrar nos dias de hoje.(...) As caras dos ricos e dos pobres envelhecem desde a nascença com as mesmas rugas apertadas e ressequidas de mesquinhez e insatisfação. As mulheres parecem-se com os maridos. Deus não tinha computador. Teve que usar barro, que era mais difícil de trabalhar, e uma costela humana, que era um pouco mais facíl. Deus era justo e razoavelmente ambicioso, mas de um modo rudimentar. Teve que servir-se de uma cheia uma vez (não podia pensar em névoa de poluição ou em gás dos nervos) de fogo e enxofre. As pessoas entre os ricos e pobres irradiam mal-estar. Não sabem de que terra são. Ouço a América a cantar pirem-se.(...)

Pags. 406,407.

Raul Pompéia - Ateneu

RAUL D'ÁVILA POMPEIA nasceu a 12 de abril de 1863 em Jacuacanga, Angra dos Reis, Estado do Rio de Janeiro, e faleceu a 25 de dezembro de 1895 no Rio de Janeiro.

(...) Na ocasião em que me ia embora, estavam acendendo luzes variadas de Bengala diante da casa. O Ateneu, quarenta janelas, resplendentes do gás interior, dava-se ares de encantamento com a iluminação de fora. Erigia-se na escuridão da noite, como imensa muralha de coral flamante,(...) 

Joseph Heller - Pânico

- Escutem -, digo amistosamente a ambos, precisamente a suplicar-lhes que me permitam ajudá-los. - Que querem vocês ser quando forem crescidos? Digam lá, Que querem fazer?
- Eu não quero casar, nunca - murmura taciturnamente a minha filha -, nem ter filhos.
- Trabalhar numa bomba de gasolina -, responde o meu filho.
- Bem sempre é um pouco melhor -, aprovo acenando a cabeça com uma expressão de louvor. Por que não? Ser dono do seu próprio negócio? Faz um certo sentido. Concessão lucrativa: Exxon , Texaco , Sunoco,Shell , Gulf ? Com certeza. É alguma coisa. Um começo. Muito bem. - Porquê?
- Gosto do cheiro da gasolina.
Meu Deus!
- Jack , você tem filhos.- , apelo para Green , no emprego quase em desespero. - São mais velhos que os meus. Tem um rapaz na universidade, não tem? Que quer ele ser quando sair?
- Suicida
- Não estou a gozar.
- E pensa que eu estou? Também tenho uma filha na universidade . Faz abortos. Entre tentativas de suicídio. Vai para a cama com vagabundos. Não querem continuar. Com ambos somados, já é a terceira tentativa. Disso sei eu. Uma com uma faca e duas com drogas. Até parece  o Paul Revere , não parece? Ambos se drogam. A minha nova mulher também é doida. E a mãe deles também. E a minha. Já não é nada da minha conta
- Desculpe, não sabia.
- Vá fazer qualquer coisa. Também não é da sua conta.

Pags. !52-153, Publicações Dom Quixote.

Jack Kerouac - Pela Estrada Fora

(...) - Já reparaste, Sal, que as prateleiras que eles fazem actualmente abrem rachas sob o peso de bricabraque, ao fim de seis meses, ou desabam de uma maneira geral? Acontece a mesma coisa com as casas, a mesma coisa com as roupas.Estes sacanas inventaram as matérias plásticas com que podiam construir casas que durassem eternamente. E pneus. Os americanos matam-se aos milhares todos os anos por causa de pneus de borracha defeituosos que aquecem na estrada e rebentam. Podiam fabricar pneus que não rebentassem. Passa-se a mesma coisa com o pó dentífrico. Há uma certa goma, que eles inventaram e não mostram a ninguém, que se a mascarmos em miúdos, nem uma cárie temos até ao fim da vida. E a mesma coisa com as roupas. Podem fabricar roupa que dura para sempre. Preferem fabricar artigos ordinários por forma a que toda a gente seja obrigada a continuar a trabalhar e a picar relógios de ponto e a organizar-se em sindicatos sinistros e a debater-se com dificuldade enquanto o grande saque prossegue em Washinton e Moscovo.(...) 

Pag. 173, Colecção Mil Folhas - Público. 

(...) Quando uma pessoa morre, sofre uma mutação cerebral sobre a qual nada sabemos actualmente, mas que um dia será perfeitamente inteligível, caso os cientistas se empenhem mais nisso. Os sacanas, pesentemente, só estão interessados em saber se conseguem mandar o mundo pelos ares.(...)

Ibidem pag. 178  

Elia Kazan - Os Assassinos

(...) - Tem razão quando diz que este país é forte - disse Michael -, mas então por que é que andamos sempre com medo de toda a gente? E também tem razão quando diz que alguns de nós vêm de famílias ricas e portanto tinham tudo, não é? E não querem nada disso.
   - Vocês são todos doentes! - disse Cesário.
   - Mas você que tem saúde responda lá a isto: desde que o vosso Cristo morreu, já houve algum ano em que num sítio ou noutro desta terra os cristãos não se pusessem a usar o melhor da sua ciência e os melhores filhos que tinham para matarem outros cristâos? E agora até já refinámos esta arte, nem se quer temos que olhar para eles, é premir um botão e pronto! Como você faz! É capaz de olhar para este coelho bem nos olhos? Vá, benza-se, cristão, como o vi fazer há bocado, e depois torça-lhe o pescoço! Com as suas mãos! É capaz de fazer isso sem deixar de olhar para ele?
   Cesário não conseguia olhar para o animal.(...)

Elia Kazan, Os Assassinos, pags. 46-47, Contexto Editora.

Elia Kazan - O Compromisso

A fotografia é de Luís de Barros

(...) Ela tinha um orgulho tremendo nos seus seios, nessa altura. Agora já não deve pensar da mesma maneira. Os seios são uma coisa temporária, como as flores; mudam. Não me lembro de alguém a não ser a Gwen, e a Gwen só nessa época, que os tivesse tão perfeitos e se sentisse tão orgulhosa deles. Em todas as mulheres que tinha conhecido havia qualquer coisa que não estava bem. Ou eram demasiado «A» ou demasiado «D», fortes de mais, pendentes de mais, afastados de mais, juntos de mais, bicos a mais, bicos a menos, sempre qualquer coisa. Quero dizer, o ego humano!(...)

Elia Kazan, O Compromisso pag. 58, Círculo de Leitores

E. M. Forster - Passagem Para A Índia

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa
Página 1272
Bicha 8. Fileira de pessoas (ou de qualquer coisa) dispostas umas após outras, fila.
Contrariamente ao que afirmou a cantora brasileira Marina Elali, num programa televiso, também no brasil é normal dizer-se bicha nas mesmas situações em que as pessoas normais o dizem em Portugal.

Publicações Europa-América
E. M. Forster
Passagem para a índia, página 84:
"--- Meu caro jovem doutor, diz o roto ao nu... ! Não conhece o ditado?"
Miguel ângelo, vocalista dos Delfins, disse, aos microfones da Kiss FM Lisboa, que havia alertado os elementos da banda espanhola Los Rotos, para o facto de terem de mudar de nome em portugal.
Não quererá Miguel Angelo proceder do mesmo modo em relação ao texto supracitado?

Sou forçado a concluir que a malta do mundo da música (e, pelos vistos, também o Ricardo) anda muito enrabichada com palavras que porventura possam ter uma acepção sinónima de indivíduo efeminado ou até mesmo com aquelas que só a têm na linguagem de grupos socioculturais mais rasteiros...
--------------------------------------------------------------------------------------------          (Mas todas estas realizações foram apenas o preâmbulo do grande desafio da vida de Houaiss. Em 1986, ele deu início à elaboração de sua obra máxima: o dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Assumiu o desafio e o compromisso de fazer o mais completo dicionário da nossa língua, acompanhou todas as etapas de criação e elaboração da obra - até sua morte em 1999. O dicionário foi concluído por sua equipe, hoje reunida no Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia, no Rio de Janeiro.)

Jeffrey Archer - Kane & Abel

(...) William achou que tudo era excelente, excepto a pronúncia britânica que ele tinha dificuldade em compreender.
--- Porque é que eles não falam como nós, mamâ? --- perguntava ele, e ficou surpreendido quando lhe disseram que a questão era com mais frequência colocada ao contrário, uma vez que «eles» tinham aparecido primeiro.(...)

Jeffrey  Archer, Kane & Abel pp. 39/40, Europa-América.

Bem, com o sotaque brasileiro ainda não falamos, quanto ao resto...

Фёдор Достоевский - Rcordações da Casa dos Mortos

" Não, o ponto capital é que, duas horas depois de ter entrado na prisão, o recém-chegado encontra-se nivelado com os outros, está em sua casa, tem os mesmos direitos que os seus camaradas, pertence, em suma, à comunidade dos forçados. Todos o compreendem e ele compreende todos, todos o reconhecem, todos o consideram um dos seus. Mas não acontece o mesmo no caso do homem educado. Por muito justo, bom e inteligente que ele seja, ver-se-á odiado e desprezado durante anos inteiros pela massa dos forçados que não o compreendem e que, e isso ainda é mais grave, não têm confiança nele. Não o consideram amigo nem camarada e se, com o tempo, consegue que não o molestem, continua a ser para eles um estranho. Eternamente, dolorosamente, terá consciência de que continuará solitário, isolado, mantido à distância. Cria-se um vazio à sua volta, às vezes sem má intenção da parte dos forçados. Não é como eles, e pronto. Não há nada mais terrível  do que não viver no seu meio. "

Rcordações da Casa dos Mortos, pag. 247.
Romance de Фёдор Достоевский, Publicações Europa-América.

Alan Wall - Bendito Seja o Ladrão

" As coisas melhoraram com o tempo. Por um lado, Kieran deixou de me bater quando percebeu que eu me tornara no filho adoptivo do director. Por outro, o racionamento acabou finalmente. Sem dar por isso, a minha pronúncia modificou-se tanto que os outros rapazes já não me gritavam «ianque» quando me viam na rua, embora ainda digam que a minha forma de falar é estranha. Nem uma coisa, nem outra, dizem alguns, mas há qualquer coisa de estranho no modo como articulo as vogais. "

Bendito Seja o Ladrão,  pag. 34/35, Alan Wall, Edições ASA.