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TEXTOS EM PROSA

Textos pessoais em prosa, citações de livros, letras de músicas, vídeos especialmente de "dance- music", comentários a certo tipo de imprensa etc.

TEXTOS EM PROSA

Textos pessoais em prosa, citações de livros, letras de músicas, vídeos especialmente de "dance- music", comentários a certo tipo de imprensa etc.

Vergílio Ferreia conta-corrente 3



19-Maio (segunda). Ontem, como muitas vezes, fui a casa do Ramos Rosa.(...) E então, para exemplificar a minha «tese», abri um pouco ao acaso o livro do Rosa. O poema que li era obviamente anti-discursivo, e impossível era assim descobrir nele um «discurso». Mas, irreprimivelmente, eu tive necessidade de «entender» o que lá estava, de dizer o que queria dizer. E tentei. Rosa opôs-se ao que eu entendera, mas sobre tudo opôs-se a que eu cifrasse a uma legibilidade o que da sua natureza a recusava: os elementos significativos tinham outra amplitude que não a minha estrita leitura.(...)
Por inteligibilidade da arte devemos querer significar adesão - e daí que eu prefira falar em «compreensão»; como devemos querer significar  uma redutibilidade ao «discurso» (que nunca a esgotará), se tentarmos traduzir a alguém ou a nós próprios o que houvemos sentido e até certo ponto e porquê.
Pergunto por fim ao Rosa como é que poderemos defrontar os seus versos, se não quisermos ficar mudos. E em face do desafio, toma ele próprio o texto para me demonstrar que eu abusara do seu poema. Fico a ouvir-lhe a sobreleitura da leitura que eu fizera. E ou porque eu não conseguia  ouvir lá senão o que já ouvira, ou porque Rosa, já cingido pela minha leitura, não conseguiu inventar outra, o discurso embaraçado que organizou foi justamente um «discurso» - e praticamente não muito distante do meu. Mas, no fundo, é essa a maravilha da arte - o rir-se ela do que nela lemos, mesmo que esse que lê seja o seu próprio autor.(...)

Vergílio Ferreia, conta-corrente 3, pp. 49/50.