Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

TEXTOS EM PROSA

Textos pessoais em prosa, citações de livros, letras de músicas, vídeos especialmente de "dance- music", comentários a certo tipo de imprensa etc.

TEXTOS EM PROSA

Textos pessoais em prosa, citações de livros, letras de músicas, vídeos especialmente de "dance- music", comentários a certo tipo de imprensa etc.

EQUADOR

Perante tantas críticas favoráveis e depois de ter lido, por alto, uma ou outra página do romance "Equador", decidi-me a lê-lo, mais por curiosidade do que por algum desejo advindo do quase nada que havia lido antes...
Das primeiras 100 páginas tiro a conclusão de que estamos em presença de uma obra que reúne  expressões das novelas brasileiras, muito dos lugares comuns amorosos à Margarida Rebelo Pinto e assunto à " Vates A G B " , de outra Margarida, sendo que  esta introduz uns investigadores actuais para dar cobertura ao calão tipo " Café da Manhã" .

Custa-me a entender que Miguel Sousa Tavares em cerca de dez linhas utilize " sair a perder, sair a perder, sair a ganhar ". Duvido que no princípio do século XX, em Portugal, alguém dissesse sair a em vez de ficar a ganhar ou a perder...
Também não acredito que, nessa época, Matilde  dissesse " num baile é suposto dançar-se ". Do mesmo modo é de estranhar que se usasse, a torto e a direito, as expressões " tão quanto, tanto quanto" em vez de tão como, tanto  como, tanto quanto, tão quanto, conforme o contexto...

Se as Selecções fizessem uma condensação, à semelhança da feita a " A Aliança " de James   Michener , destas 100 páginas ficariam no máximo meia dúzia.
M. S. T . disse, em tempos, aos telespectadores que  " das muitas pessoas que escrevem actualmente, umas não sabem escrever, outras não têm nada para contar, e umas terceiras não sabem contar..."
M. S. T sabe contar histórias ( cerca de trinta páginas, mentalmente, numa viagem de Lisboa a Vila Viçosa, cerca de cem de Lisboa a São Tomé, sempre mentalmente, é obra...), mas não será um romancista histórico como por exemplo um Max Gallo ...
Não vou seguir o conselho que o autor de " Equador" deu aos telespectadores : " se ao fim de 100 páginas ainda não estiver a gostar, ponha o livro de lado e leia outro"...
A partir da página 121 o romance ganha qualidade e interesse aproximando-se bastante da imagem fotográfica ao estilo de Alves Redol...
O governador de São Tomé e Príncipe e o cônsul inglês mais parecem dois heróis de romance de aventuras do que de romance "histórico" que exige mais rigor, apesar da ficção...
Antes de avançar na leitura deste romance, abri-o uma ou outra vez ao acaso e, numa delas, ao ler a descrição da esposa do cônsul inglês, previ e acertei que o governador se envolveria com a dama. Quando, Já durante a leitura do livro, surgiu uma viúva ainda em bom estado, previ o mesmo e também acertei: demasiado previsível...
E o adjectivo líquido: olhos líquidos, verde líquido, algodão líquido... Já só leio o romance de guarda chuva aberto, de tanto líquido... 
Um romance desnecessariamente demasiado extenso...  
Em suma, um romance líquido, no qual se realiza que é suposto, no limite do suportável, sair a ganhar ou a perder sem que ninguém fique a perder ou a ganhar e uns perdem para os outros para quem estão a jogar sem que ninguém jogue ou perca com ninguém, trazendo à memória do leitor "Rocambole" com fim infeliz e "Lágrimas de Mãe", um romance em fascículos que antigamente vendiam porta a porta...

"Penso que o Nobel é uma acto de justiça à língua e à literatura portuguesa, que chega, pelo menos, com 20 anos de atraso. Mas já se tinha percebido que, mais ano menos ano, ele havia de chegar e para o receber só poderiam ser Saramago ou Lobo Antunes, os melhores divulgados e promovidos no estrangeiro. Coube a sorte a Saramago, para quem o Nobel ainda chegou a tempo, ao contrário de outros, como Torga, Nemésio ou Jorge de Sena. Pessoalmente, rompo o consenso nacional, porque acho que Saramago escreve muito bem, mas não é um grande escritor. Felizmente, o júri do Nobel não pensou o mesmo que eu."

Miguel Sousa Tavares, jornalista

Saramago narra o absurdo de modo a torná-lo racional , enquanto M. S. T . no romance " Equador" narra  acontecimentos históricos como se de aventuaras se tratasse: a diferença entre um grande escritor, Saramago, e um aprendiz da escrita...