Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

TEXTOS EM PROSA

Textos pessoais em prosa, citações de livros, letras de músicas, vídeos especialmente de "dance- music", comentários a certo tipo de imprensa etc.

TEXTOS EM PROSA

Textos pessoais em prosa, citações de livros, letras de músicas, vídeos especialmente de "dance- music", comentários a certo tipo de imprensa etc.

Güneli Gün - Na Estrada para Bagdad



"(...) «"Depressa!", disse. "Prendam aquele estrangeiro que se está a empanturrar de arroz doce! Não o deixem engulir o que levou à boca! Se for preciso, metam-lhe os dedos pela goela abaixo!"(...)«"É pá, salvei-me por pouco!", exclamou o príncipe do haxixe. "Ainda bem que o estrangeiro me impediu de comer o arroz! O Khan não gosta que mudem o sítio às bandejas, nem que lhe ataquem o arroz!" (...)«E foi assim que o pérfido negociante de escravos morreu como o porco que fora em vida. (...) «Na festa da pilhagem do mês seguinte, reparei que os convidados evitavam o lugar em frente do arroz doce com cerejas. E além disso, falavam bem alto, para que o Khan ouvisse.«" Touro Furioso", dizia um deles, "ouve-me com atenção." «" Que foi, Carneiro Imaculado?" «"Não toques no arroz doce, Touro Furioso, Porta-te bem e serás recompensado." «"E tu faz o mesmo, Carneiro Imaculado", retorquiu o Touro. "Faz o mesmo, porque só assim poderás continuar a mexer essa tua língua dentro dessa tua boca."(...)«De início, o ladrão não conseguia encontrar um lugar vago. Porém, acabou por dar com o lugar vazio, mesmo em frente da bandeja de arroz doce em que ninguém tocara. E jawan correu a sentar-se e a puxar para si a bandeja. «"Mas tu estás doido, irmão?", disse Carneiro Imaculado. "Que pensas tu que vais fazer?" «"Vou comer este arroz todo, porquê?", atirou-lhe o rude curdo. " O que é que tu tens com isso, ó abelhudo?" «Irmão", interveio Flor Esguia, "quem come desse arroz, tem morte certa. Só tens de escolher entre ser puxado por cavalos ou esquartejado por machados. Qual preferes?"(...) «"Graças a Deus que não sou um prato de arroz e não estou à tua frente, forasteiro!", gracejou o Primeiro Ministro. "Com uma única mancheia, quase deixaste o prato vazio!" «"Deixem comer o condenado!", exclamou o fumador de haxixe, afastando-se de Jawan. "Estou a olhar para ele e já o vejo esquartejado!" «Estava Jawan a fazer outra bola de arroz quando ordenei às duas sentinelas que o detivessem.(...) «As sentinelas trouxeram então Jawan, cuja primeira natureza era a ladroagem, à minha presença. «"Estás a ver?", Disse o Touro ao Carneiro. "Eu não te disse?" «"O homem foi avisado", retorquiu o Carneiro. «"Deviamos dar um novo nome a este prato", sugeriu, maliciosa, Flor Esguia. "Deviamos chamar-lhe o Arroz da Matança." (...) «Depois de aplicada a pena a Jawan, o curdo, pude sentir bem na pele a frieza dos meus súbditos. (...) «Mas foi nesta triste festa que um prazer inesperedo veio confortar-me os olhos magoados. Um jovem estrangeiro sentou-se no lugar vazio diante da bandeja de arroz doce. Reconheci imediatamente Ali Xir. Vendo aquele rapaz encantador esticar-se delicadamente para mergulhar os dedos no arroz, os convidados pararam de comer e puseram-se a olhar para ele com a maior consternação. «"Oh, oh", exclamou o fumador de haxixe. "Lá vai começar tudo outra vez!" «"Jovem", suplicou Flor Esguia, que nunca esperava que falassem por ela, "pela tua doce vida, não toques no arroz doce!" «"Tens toda a razão, minha querida", disse o janota com as unhas pintadas. "Quem desse arroz come, ou encurtam-lhe a vida, ou encurtam-lhe os membros." «"Não comas, irmãozinho", implorou-lhe Touro Furioso. "Esse arroz é morte certa". «Se ainda tens dúvidas, olha para mim", disse Jawan, o curdo, mostrando-lhe os coutos. «"Às vezes há males que vêm por bem", retorquiu Ali Xir. "Eu estou farto desta vida. Tentei privar-me dela, mas falhei sempre, A morte não me quer, por muito que a corteje. A morte evita-me, como se eu fosse indigno da bênção do sono eterno." «"E o impudente  Ali Xir não esperou nem mais um segundo e logo ali se atirou ao arroz. (...) «"E agora?", disse Carneiro Imaculado. «"O arroz foi-se, mas ele ainda cá está"; comentou o fumador de haxixe.(...)"

Güneli Gün, Na Estrada para Bagdad, pp. 226-232. Edições Asa